segunda-feira, 12 de março de 2012

Palmadas


Embora este assunto venha a ser debatido ad nauseam, nalguns aspectos, dizer-se que se deu uma palmada a um filho continua a ser um tabu, e foi exactamente por isso que resolvi abordá-lo, para que se quebre “the bubble”. Mas, antes de mergulharmos no tópico, quero apenas frisar que não estou aqui, como já expliquei, para julgar ninguém, procuro apenas que este seja um espaço de reflexão, e que a possamos fazer juntos...
Para o pediatra Paulo Oom (consultar “O Livro dos Pais”), dar uma palmada “é uma solução possível”, frisando que “não vale a pena pensar que se consegue educar uma criança até à adolescência sem nunca lhe dar uma palmada.” A verdade é que, a grande maioria de nós, apanhou uma palmada dos pais e, como sabemos, tendemos a modelar o comportamento dos nossos pais, embora não estejamos condenados a fazê-lo.
No entanto, e embora reconheça que, numa situação de exceção uma palmada possa ter o efeito desejado (parar o comportamento de forma rápida e eficaz), não posso deixar de pensar: Se em todos os nossos outros relacionamentos humanos dar uma palmada não é considerado um comportamento aceitável, porque é que dar uma palmada nos nossos filhos é? Será que os nossos filhos, por serem nossos filhos, têm menos direitos, ou é justamente o contrário? Se colocamos tanta ênfase na tolerância, e tentamos promover comportamentos não agressivos/violentos nas crianças, porque é que os castigos corporais ainda são toleráveis? Se não aceitaria que as pessoas que tomam contam do seu filho lhe dessem uma palmada, porque é que considera aceitável que você o faça?
Acredito, sinceramente, que, quando damos uma palmada (e sim, infelizmente, em situações de exceção, já dei uma palmada à minha filha), fazemo-lo motivados pelo medo (situações de perigo, em que agimos antes de pensar), ou porque estamos demasiado cansados e stressados para lidar com o comportamento em questão de forma mais apropriada e construtiva – existem inúmeras formas de educar que não passam pela palmada.
O pediatra supramencionado refere ainda que “num estudo recente realizado nos Estados Unidos, 90% dos pais admitiram que já tinham dado uma palmada aos seus filhos em alguma ocasião. Mais do que isso, quase 60% dos pediatras aprovaram a utilização de uma palmada nalguns casos.” No entanto, também reforça que “a disciplina é sempre mais eficaz, se for tomada pela positiva (...), estimulando os comportamentos desejáveis ao invés de punir os indesejáveis.” 
Igualmente, quando falamos em educação, temos de falar no futuro, e a palmada, enquanto acção disciplinadora, tem, necessariamente, os dias contados. Educar não deve ser sinónimo de temer, educar deve ser sinónimo de amar. A palmada pode ser eficaz a cessar um determinado comportamento, mas não ensina a criança as consequências do mesmo. Não é possível estarmos sempre presentes, pelo que é essencial que a criança aprenda, por si própria, com a ajuda dos pais, a diferenciar comportamentos aceitáveis, desejáveis, e não aceitáveis, ou indesejáveis. É essencial que a criança aprenda auto-disciplina.
Como disse, já utilizei a palmada. Crescer implica aprendizagem e aprendizagem, na maioria das vezes, implica erro. Errei (certamente, vou errar ainda muito mais), mas, por ter pensado nestes pontos, enquanto mãe, acima de tudo enquanto educadora, estou decidida a não utilizar novamente a palmada. E vocês? Quero ouvir a vossa opinião: dar uma palmada é, ou não, um comportamento aceitável, necessário?
Muito importante: estivemos aqui a falar de palmadas, e não de espancamentos, ou outras formas de castigos corporais, que considero, obviamente, totalmente inaceitáveis e intoleráveis. Também é importante lembrar que uma palmada pode ter consequências devastadoras. É fundamental lembrarmo-nos que estamos a falar de crianças, com fragilidades próprias, e equilíbrios precários. Quando falo em palmadas, estou a referir-me à típica palmada nas mãos ou no rabo, e não de outras situações, mais graves e potencialmente fatais. Também é fundamental lembrar que "abaixo dos dezoito meses a criança não tem capacidade de relacionar o seu comportamento com a consequente palmada" (Paulo Oom, "O Livro dos Pais").


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